terça-feira, 13 de dezembro de 2011

13 de dezembro

Hoje é só felicidade para Adélia Prado. Isso mesmo! Ela faz 76 aninhos muito bem vividos e foi nesse clima que eu qualifiquei minha dissertação hoje e fui aprovada com muita felicidade.



Com vocês um presente de Adélia:


                                  MULHERES




Ainda me restam coisas
mais potentes que hormônios.
Tenho um teclado e cito com elegância
Os Maias, A Civilização Asteca.
Falo alto, às vezes, para testar a potência,
Afastar as línguas de trapo me avisando da velhice:
‘Como estás bem!’
Aos trinta anos tinha vergonha de parecer jovenzinha,
idade hoje em que as mulheres ainda maravilhosas se processam
ácidas e perfeitas como a legumes no vinagre.
De qualquer modo, se o mundo acabar
a culpa é nossa.

A duração do dia (2010) - Adélia Prado

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Você conhece uma Margarete?

Por acaso depois de uma aula em que o tema foi "O que você feria se seu filho fosse gay", eu me deparo com Margarete. Essa poesia que é vida me deixa com febre poética!

Os comoventes preconceitos

As finuras de Margarete
fogem a padrões sociais:
'O popular, tudo bem.
Mas o clássico é imbatível!'
Com a alma à porta da rua
nada esconde de si mesma.
Vi tremer-lhe o queixo um dia
a ardoroso pretendente:
'Você por acaso é gay?'
Sofre muito Margarete,
a que nao sabe doer-se,
inocente como romã,
que racha por não conter-se.


Adélia Prado - A duração do dia (2010)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

E por falar em cotidiano...

Estou eu buscando algo que retrate a visão e reflexão sobre o cotidiano e me vem "Aqui, tão longe". Fiquei pensando sobre as coisas que passam por nossos olhos enquanto tantas outras estão rodeando nossas mentes. Assim é esse eu lírico. Vejamos:



Aqui, tão longe



Neste bairro pobre todos têm um real

para comprar as frutas

do caminhão de São Paulo.

Homens não pagam às mulheres.

Todas da vida, dão de comer e comem

coisas, de si, agradecidas.

Só morrem os muito velhinhos

que pedem para descansar.

Pais e mães vão-se às camas

pra fazerem seus filhos,

cadelas e cães à rua

fazerem seus cachorrinhos.

Ao crepúsculo me visita

essa memória dourada,

mentira meio existida,

verdade meio inventada.

O sol da tarde finando-se,

ao cheiro de lenha queimada

todos se vão à fogueira

dançar em volta das chamas

para um deus ainda sem nome,

um medo lhes protegendo,

um ritmo lhe ordenando,

jarro, caneca, bacia,

cama, coberta, desejo,

que amanhã seja outro dia,

igual a este dia, igual,

igual a este dia, igual.

(A duração do dia, 2010, p. 21 – 22)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Argumento


Tenho três namorados.
Um na Europa que é um boneco de gelo,
outro na cidade vendo futebol no rádio
e o terceiro tocando violão na roça.
Todos mamíferos, sangue vermelho e ossos friáveis.
Um deles cuspiu no chão, o que escolhi pra casar.
Mesmo tendo feito o que fez, só ele me perdoará.

 Adélia Prado - A duração do dia (2010)

A incisiva Adélia

O aproveitamento da matéria

Só quem olha sem asco as próprias fezes,
só este é rei.
Só ele pode ordenar-te:
Poupa o cabrito e a grama,
não maltrates borboletas.
A humilhação quebra a espinha
de quem vai ao trono sem saber de si.
Agostinho, o santo, já disse:
Vim de um oco sangrento,
é entre fezes e urina
que nasci.


A duração do dia (2010)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Um pouco de Marina

             Finalmente posto hoje os poemas de Marina Colasanti que Tássia Tavares (Mestranda em Literatura pela UFPB) me enviou. Eu me identifiquei bastante com o que li e estou procurando livros dela para adquirir (Vale muito a pena).
             Por enquanto, posto um pouco da vida dela e um dos poemas que mais gostei! Futuramente vou plantando a poesia da Colasanti no blog. De antemão meus agradecimentos a Tassita!
         Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou até os 10 anos na Itália, e chegou ao Brasil em 1948, quando sua família se radicou no Rio de Janeiro. Em 1968, iniciou sua carreira literária, com o livro Eu sozinha. Tem mais de 40 títulos publicados, entre poesia, crônicas, contos, livros para crianças e jovens. Trabalhou em revista, jornal, televisão e como ilustradora de seus livros infantis. Além dos livros, Marina dedica-se às artes visuais: entre 1952 e 1956 estudou pintura e, em 1958, já participava de salões de artes plásticas. Entre outros prêmios, ganhou quatro Jabuti e o Livro do Ano por Ana Z aonde vai você?, além de prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, da Câmara Brasileira do Livro, da Associação Brasileira de Críticos de Arte, do Concurso Latinoamericano de Cuentos para Niños, promovido pela FUNCEC/UNICEF, e o prêmio Norma-Fundalectura latino-americano.

(texto informado na 'orelha' do livro Passageira em trânsito. Marina Colasanti. Rio de Janeiro: Record, 2009)





Sem que se diga

Sísifo empurrava sua pedra
morro acima. E chegando no alto
a pedra rolava, a pedra
                                          rolava.

Semelhante é o destino das mulheres.
Sem que se diga 'maldição'
refazem camas.

(M. Colassanti, 1993)

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

No mais divino ela é humana


                Durante as minhas leituras me deparei frente ao poema que segue. Já o havia lido algumas vezes, mas apenas hoje ele tomou conta de mim e, quase que pedindo para ser lido por vocês, veio parar aqui. Geralmente, eu não teço comentários, deixo a leitura livre. Entretanto, quero que observem como o perdão é uma das atitudes mais difíceis da nossa natureza.

Canto eucarístico

Na fila da comunhão percebo à minha frente uma velha,
a mulher que há muitos anos crucificou minha vida,
por causa de quem meu marido se ajoelhou em soluços diante de mim:
‘juro pelo Magnificat que ela me tentou até eu cair,
peço perdão, por alma de meu pai morto,
pelo Santíssimo Sacramento, foi só aquela vez, aquela vez só’.
Coisas atrozes aconteceram.
Até tia Cininha, que morava longe,                  
deu de aparecer na volta do dia.
Conversávamos a portas fechadas,
ela com um ar no rosto que eu ainda não vira,
zangando pouco com o menino, deixando ele reinar.
Houve punhos fechados, observações científicas
sobre a rapidez com que a brilhantina desaparecia do vidro,
sobre como pode um homem, num só dia,
trocar duas camisas limpas.
Irritação, impertinência,
uma juventude amaldiçoada tomando conta de tudo,
uma alegria – que chamei assim à falta de outro nome –
invadindo nossa casa com a sofreguidão das coisas do diabo.
Rezei de modo terrível.
O perdão tinhas espasmos de cobra malferida
e não queria perdoar,
era proparoxítono, um perdão grifado,
que se avisava perdão.
‘Olha, filha, aquela mulher que vai ali
não é digna do nosso cumprimento’.
‘Por que, mãe, não é dí-gui-na?’
‘Quando você crescer, entenderá’.
Senhor eu não sou digno
que neste peito entreis,
mas vós, ó Deus benigno,
as faltas suprireis.
Na fila da comunhão cantamos, ambas.
A mulher velha e eu.

Adélia Prado - O coração disparado (1978)