E sem querer esse poema me pega pela dureza, pega pela verdade que não quer acreditar:
Corridinho
O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.
Adélia Prado - O coração disparado
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
O amor é desse jeito
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
13 de dezembro
Hoje é só felicidade para Adélia Prado. Isso mesmo! Ela faz 76 aninhos muito bem vividos e foi nesse clima que eu qualifiquei minha dissertação hoje e fui aprovada com muita felicidade.

Com vocês um presente de Adélia:
MULHERES
Ainda me restam coisas

Com vocês um presente de Adélia:
MULHERES
Ainda me restam coisas
mais potentes que hormônios.
Tenho um teclado e cito com elegância
Os Maias, A Civilização Asteca.
Falo alto, às vezes, para testar a potência,
Afastar as línguas de trapo me avisando da velhice:
‘Como estás bem!’
Aos trinta anos tinha vergonha de parecer jovenzinha,
idade hoje em que as mulheres ainda maravilhosas se processam
ácidas e perfeitas como a legumes no vinagre.
De qualquer modo, se o mundo acabar
a culpa é nossa.
A duração do dia (2010) - Adélia Prado
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Você conhece uma Margarete?
Por acaso depois de uma aula em que o tema foi "O que você feria se seu filho fosse gay", eu me deparo com Margarete. Essa poesia que é vida me deixa com febre poética!
As finuras de Margarete
fogem a padrões sociais:
'O popular, tudo bem.
Mas o clássico é imbatível!'
Com a alma à porta da rua
nada esconde de si mesma.
Vi tremer-lhe o queixo um dia
a ardoroso pretendente:
'Você por acaso é gay?'
Sofre muito Margarete,
a que nao sabe doer-se,
inocente como romã,
que racha por não conter-se.
Adélia Prado - A duração do dia (2010)
Os comoventes preconceitos
As finuras de Margarete
fogem a padrões sociais:
'O popular, tudo bem.
Mas o clássico é imbatível!'
Com a alma à porta da rua
nada esconde de si mesma.
Vi tremer-lhe o queixo um dia
a ardoroso pretendente:
'Você por acaso é gay?'
Sofre muito Margarete,
a que nao sabe doer-se,
inocente como romã,
que racha por não conter-se.
Adélia Prado - A duração do dia (2010)
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
E por falar em cotidiano...
Estou eu buscando algo que retrate a visão e reflexão sobre o cotidiano e me vem "Aqui, tão longe". Fiquei pensando sobre as coisas que passam por nossos olhos enquanto tantas outras estão rodeando nossas mentes. Assim é esse eu lírico. Vejamos:
Aqui, tão longe
Neste bairro pobre todos têm um real
para comprar as frutas
do caminhão de São Paulo.
Homens não pagam às mulheres.
Todas da vida, dão de comer e comem
coisas, de si, agradecidas.
Só morrem os muito velhinhos
Pais e mães vão-se às camas
pra fazerem seus filhos,
cadelas e cães à rua
fazerem seus cachorrinhos.
Ao crepúsculo me visita
essa memória dourada,
mentira meio existida,
verdade meio inventada.
O sol da tarde finando-se,
ao cheiro de lenha queimada
todos se vão à fogueira
dançar em volta das chamas
para um deus ainda sem nome,
um medo lhes protegendo,
um ritmo lhe ordenando,
jarro, caneca, bacia,
cama, coberta, desejo,
que amanhã seja outro dia,
igual a este dia, igual,
igual a este dia, igual.
(A duração do dia, 2010, p. 21 – 22)
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Argumento
Tenho três namorados.
Um na Europa que é um boneco de gelo,
outro na cidade vendo futebol no rádio
e o terceiro tocando violão na roça.
Todos mamíferos, sangue vermelho e ossos friáveis.Um deles cuspiu no chão, o que escolhi pra casar.
Mesmo tendo feito o que fez, só ele me perdoará.
Adélia Prado - A duração do dia (2010)
A incisiva Adélia
O aproveitamento da matéria
Só quem olha sem asco as próprias fezes,
só este é rei.
Só ele pode ordenar-te:
Poupa o cabrito e a grama,
não maltrates borboletas.
A humilhação quebra a espinha
de quem vai ao trono sem saber de si.
Agostinho, o santo, já disse:
Vim de um oco sangrento,
é entre fezes e urina
que nasci.
A duração do dia (2010)
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
No mais divino ela é humana
Durante as minhas leituras me deparei frente ao poema que segue. Já o havia lido algumas vezes, mas apenas hoje ele tomou conta de mim e, quase que pedindo para ser lido por vocês, veio parar aqui. Geralmente, eu não teço comentários, deixo a leitura livre. Entretanto, quero que observem como o perdão é uma das atitudes mais difíceis da nossa natureza.
Canto eucarístico
Na fila da comunhão percebo à minha frente uma velha,
a mulher que há muitos anos crucificou minha vida,
por causa de quem meu marido se ajoelhou em soluços diante de mim:
‘juro pelo Magnificat que ela me tentou até eu cair,
peço perdão, por alma de meu pai morto,
pelo Santíssimo Sacramento, foi só aquela vez, aquela vez só’.
Coisas atrozes aconteceram.
Até tia Cininha, que morava longe,
deu de aparecer na volta do dia.
Conversávamos a portas fechadas,
ela com um ar no rosto que eu ainda não vira,
zangando pouco com o menino, deixando ele reinar.
Houve punhos fechados, observações científicas
sobre a rapidez com que a brilhantina desaparecia do vidro,
sobre como pode um homem, num só dia,
trocar duas camisas limpas.
Irritação, impertinência,
uma juventude amaldiçoada tomando conta de tudo,
uma alegria – que chamei assim à falta de outro nome –
invadindo nossa casa com a sofreguidão das coisas do diabo.
Rezei de modo terrível.
e não queria perdoar,
era proparoxítono, um perdão grifado,
que se avisava perdão.
‘Olha, filha, aquela mulher que vai ali
não é digna do nosso cumprimento’.
‘Por que, mãe, não é dí-gui-na?’
‘Quando você crescer, entenderá’.
Senhor eu não sou digno
que neste peito entreis,
mas vós, ó Deus benigno,
as faltas suprireis.
Na fila da comunhão cantamos, ambas.
A mulher velha e eu.
Adélia Prado - O coração disparado (1978)
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Bairro
O rapaz acabou de almoçar
e palita os dentes na coberta.
O passarinho recisca e joga no cabelo do moço
excremento e casca de alpiste.
Eu acho feio palitar os dentes,
o rapaz só tem escola primária
e fala errado que arranha.
Mas tem um quadril de homem tão sedutor
que eu fico amando ele perdidamente.
Rapaz desses
gosta muito de comer ligeiro:
bife com arroz, rodela de tomate
e ir ao cinema
com aquela cara de invencível fraqueza
para os pecados capitais.
Me põe tão íntima, simples,
tão à flor da pele o amor
o samba-canção,
o fato de que vamos morrer
e como é bom a geladeira,
o crucifixo que mamãe lhe deu,
o cordão de ouro sobre o frágil peito
que.
Ele esgravata os dentes com o palito,
esgravata é meu coração de cadela.
O coração disparado (1978)
e palita os dentes na coberta.
O passarinho recisca e joga no cabelo do moço
excremento e casca de alpiste.
Eu acho feio palitar os dentes,
o rapaz só tem escola primária
e fala errado que arranha.
Mas tem um quadril de homem tão sedutor
que eu fico amando ele perdidamente.
Rapaz desses
gosta muito de comer ligeiro:
bife com arroz, rodela de tomate
e ir ao cinema
com aquela cara de invencível fraqueza
para os pecados capitais.
Me põe tão íntima, simples,
tão à flor da pele o amor
o samba-canção,
o fato de que vamos morrer
e como é bom a geladeira,
o crucifixo que mamãe lhe deu,
o cordão de ouro sobre o frágil peito
que.
Ele esgravata os dentes com o palito,
esgravata é meu coração de cadela.
O coração disparado (1978)
terça-feira, 28 de junho de 2011
Guarde um pouco
Assim que terminei de ler esse poema me peguei pensando sobre como os objetos guardam um pouco de nós.
O guarda-chuva preto
Esquecido na mesa,
com o cabo voltado para cima
e as bordas arrepanhadas,
é como seu dono vestido,
composto no seu caixão.
Não desdobra a dobradiça,
não pousa no braço grave
do que, sendo seu patrão,
foi pra debaixo da terra.
Ele, vai para o porão.
Existe um retrato antigo
em que pousou aberto,
com o senhor moço e sem óculos.
Guarda-chuva, guarda-sol,
guarda-memória pungente
de tudo que foi em nós
um pouco ridículo e inocente.
Guarda-vida, arquivo preto,
cão de luto, cão jazente.
Adélia Prado - O coração disparado, 1978
domingo, 26 de junho de 2011
Entre brigas
A primeira vez que li esse poema vibrei com a mulher-força que impera nele. Espero que batam palmas para seus impulsos!
Briga no beco
Encontrei meu marido às três horas da tarde
com uma loura oxidada.
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mão e palavras
que nunca suspeitei conhecer.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea-ofendida,
uivava.
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.
Desde então faço milagres.
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Parâmetro
Deus é mais belo que eu.
Adélia Prado - A faca no peito (1988)
Deus é mais belo que eu.
E não é jovem.
Isto sim, é consolo.
Adélia Prado - A faca no peito (1988)
quarta-feira, 22 de junho de 2011
Com Amor
Estreando com Adélia Prado:
Ensinamento
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
‘Coitado, até essa hora no serviço pesado’.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
(Bagagem, 1976)
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